Atomico calcula que investimento em tecnologia em 2018 terá ultrapassado os 400 milhões de dólares em Portugal. Ronda de financiamento da Outsystems foi uma das mais marcantes do ano.

O crescimento do investimento na tecnologia portuguesa em 2018 fez com que o setor tech tenha crescido cinco vez mais em território nacional do que no resto das economias europeias. O cálculo é da Atomico no seu mais recente relatório, “O Estado da tecnologia europeia”, divulgado esta terça-feira. A capital de risco estima que, durante este ano, o crescimento da tecnologia portuguesa tenha motivado o investimento de mais de 400 milhões de dólares (contra 15 milhões em 2017), sublinhando que desses, 360 milhões foram para a Outsystems, um dos três unicórnios fundados por portugueses.

De acordo com os resultados do documento, o setor tecnológico em Portugal está a impulsionar a criação de emprego: no nosso país, a força de trabalho cresceu 6,4%, número que compara com a média europeia de 1,1%. Neste indicador, Portugal só fica atrás de França, que disparou 7,3%.

“Ser unicórnio não muda nada”, mas dá força à OutSystems

O relatório State of Tech da Atomico é feito em parceria com a Slush e a Orrick refere ainda que, este ano, o investimento total na economia europeia atingiu os 23 mil milhões de dólares, um crescimento exponencial face aos cinco mil milhões de 2013. Só no ano de 2018, 17 empresas europeias atingiram valorizações de milhares de milhões de dólares, e três das dez entradas em bolsa apoiadas por capital de risco são provenientes da Europa.

Unicórnios e IPO

2018 foi cheio de novidades em matéria de tecnologia: além da Outsystems, também a Talkdesk, fundada pelos portugueses Tiago Paiva e Cristina Fonseca, atingiu uma valorização de mil milhões de dólares e, por isso, o estatuto de unicórnio. O ano ficou ainda marcado pela entrada em bolsa da Farfetch, fundada pelo português José Neves, na bolsa de Nova Iorque, e também por duas novidades na bolsa de Lisboa: Raize e Science4you abriram o capital a novos investidores.

“O investimento massivo na Outsystems sugere que o potencial de Portugal está a ser concretizado“, assegura Tom Wehmeier, sócio e diretor de Pesquisa da Atomico. “Os portugueses estão a mobilizar talentos e a criar um ecossistema poderoso — sustentado pela taxa de crescimento mais rápida da Europa em termos de programadores profissionais. Tal como outros países da Europa, a tecnologia portuguesa continua a expandir-se para lá da capital. O crescimento da comunidade tecnológica do Porto é um forte sinal da crescente maturidade de Portugal”, adianta.

 

O sucesso de empresas deste tipo fez também aumentar a comunidade portuguesa de programadores, que está a crescer mais rapidamente do que na Europa ocidental, refere o comunicado: enquanto na Europa, o número de programadores cresceu 4,2%, em Portugal este valor disparou 16,2%.

“Continuamos a ver pequenos ecossistemas a desenvolverem-se em toda a Europa, mas há ainda um longo caminho a percorrer — e que se apresenta a nós como uma oportunidade. Ao mesmo tempo que países como Espanha explodem com muitas novas startups, bons exits e equipas ambiciosas, o seu vizinho Portugal continua em curva ascendente e Itália, apesar do PIB ainda não foi capaz de gerar um ecossistema de capital de risco que faça jus ao seu potencial. É encorajador que mais fundos consigam investir fora de casa para que os fundadores de tech scenes menos conhecidas possam ter acesso a conhecimento de topo e ao capital global necessário para escalar o negócio”, defende Carolina Brochado, partner da Atomico.

A Europa está a colher os lucros iniciais da transformação do seu ecossistema tecnológico.

Tom Wehmeier Partner da Atomico

Tendências em análise

Além da análise ao ano no setor tecnológico, o relatório da Atomico faz também referência às grandes tendências detetadas pelos participantes, no setor tecnológico em Portugal. Entre elas, o facto de a tecnologia portuguesa não se localizar apenas em Lisboa: o Porto é, de acordo com as conclusões do documento, o terceiro centro europeu em matéria de crescimento — 72% em 2018 –, de entre os membros ativos do Meetup. Portugal é, como um todo, o sexto país que mais cresce na Europa (51%) considerando o aumento do número de membros ativos em grupos relacionados com tecnologia.

Outro dado é ainda a desigualdade de género em matéria de financiamento: de todos os fundos angariados pelas empresas europeias em capital de risco em 2018, 93% foram para equipas de fundadores inteiramente masculinas.

“Este relatório pode parecer um pouco repetitivo, dada a tónica na quebra de recordes, mas os fatos falam por si. Atualmente, os fundadores europeus têm acesso a investidores sofisticados, podem contratar os melhores talentos, ir mais longe, evitar a concorrência feroz, abrir o seu capital e vingarem na cena global. A Europa está a colher os lucros iniciais da transformação do seu ecossistema tecnológico. Na verdade as sementes do sucesso deste ano foram lançadas há uma década. Daí que seja de esperar um sucesso ainda maior nos próximos anos”, refere o autor do relatório.


Mariana de Araújo Barbosa

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