A vida na localidade da Ribeira Quente, na ilha açoriana de São Miguel, e da sua comunidade piscatória, é a “personagem principal” de “Hálito Azul”, documentário de Rodrigo Areias que tem na sua génese a obra de Raul Brandão.

O filme, que tem estreia comercial na quinta-feira, teve na sua génese “um projeto sobre Raul Brandão e a sua obra”, mas à medida que o realizador e produtor e a sua equipa mergulhavam no universo do jornalista e escritor, que viveu entre 1867 e 1930, “mais vasto o projeto se estava a tornar”. “Então decidi inverter e concentrar-me numa obra, ‘Os Pescadores’”, recordou Rodrigo Areias em declarações à Lusa.

Em “Os Pescadores”, Raul Brandão “descreve pormenorizadamente a faina”, tornando a obra num “livro documental”, que tem também “um lado altamente poético da escrita” do também jornalista. “Ele descreve durante páginas e páginas o por do sol ou o hálito azul matutino do mar”, referiu Rodrigo Areias.

O realizador decidiu então “fazer o filme a partir destas duas premissas: por um lado, os grandes planos das pessoas a trabalharem, numa lógica daquilo que é o trabalho manual e a pesca artesanal, e, por outro, o local onde se inserem e de que forma é que encaram o mar, ou essa entidade mitológica que, para eles, se torna aquilo que é o mar”.

“O que pretendi foi seguir esse princípio de olhar para uma realidade”, afirmou.

Em “Os Pescadores”, Raul Brandão faz uma descrição pormenorizada de todas as comunidades piscatórias de Portugal Continental, de Caminha a Vila Real de Santo António. Em “Hálito Azul”, “o personagem principal não é uma pessoa, mas aldeia inteira [localizada nos Açores] e essa comunidade piscatória da qual a aldeia gira em torno”.

“Hálito Azul” começou a ser desenvolvido em Portugal Continental, aproximando-se assim de “Os Pescadores”, mas Rodrigo Areias não queria “estar a filmar traineiras e portos de pesca e a costa substancialmente destruída e pejada de edifícios horríveis quando são filmados do mar”.

Além disso, o realizador tem “uma relação pessoal” com a Ribeira Quente, sítio que conhece bem e onde vai “há muitos anos”.

“Então decidi focar-me nesse microcosmos que é a Ribeira Quente, porque é uma aldeia piscatória completamente isolada. Ninguém vai à Ribeira Quente que não queira lá ir, porque não tem passagem para lado nenhum”, contou.

Rodrigo Areias considera que “esse isolamento traz uma série de características que são fundamentais, até na própria forma como as pessoas lidam com todas essas questões, com o seu dia-a-dia”. “Por outro lado, os Açores têm um lado de obrigatoriedade de pesca artesanal, que é muito mais sustentável, por um lado, e, por outro, plasticamente muito mais interessante também”, defendeu.

Em “Os Pescadores”, Raul Brandão, “após o advento da pesca industrial, quando as pessoas se começam a aperceber que se vai começar a destruir de forma violenta os ecossistemas, as comunidades piscatórias não durariam mais do que 50 anos”.

A obra foi originalmente publicada em 1923 e, quase cem anos depois, ainda há comunidades piscatórias em Portugal, “mas estão em franco desaparecimento”.

E Rodrigo Areias está convencido que conseguiu captar no filme essa realidade, “que é efetivamente o fim de vida de uma comunidade, o fim de uma realidade, que se está a alterar de uma forma muito rápida com o fim do peixe no mar”.

“E isso para mim era importante, captar esse principio da obra de Raul Brandão, captar algo da sua forma e conseguir transformá-lo no filme”, afirmou.

“Hálito Azul” é um documentário, mas tem “partes que são claramente criadas”. “É mais uma provocação à realidade do que propriamente uma encenação”, explicou.

Os diálogos entre os intervenientes “são todos espontâneos” e para conseguir que tal acontecesse, a equipa passou lá “muito tempo”, tanto quanto fosse necessário até passar despercebida. “Até as pessoas passarem a ter a sua vida normal e as suas conversas enquanto nós estamos para ali a ir filmando”, disse.

A “provocação à realidade” está relacionada com uma peça de teatro. “Quando o professor, e encenador da peça, descreve a cena do faroleiro, que vamos ouvindo ao longo do tempo, como outras, há a intenção de mostrar radicalmente quem é que são as personagens ficcionais: o faroleiro [interpretado por Zeca Medeiros] e a observadora [Tânia Dinis]. São as duas personagens que trago para dentro do filme ou que faço com que, mais a Tânia, confronte a realidade, que a empurre, ou que a abane pelo menos”, explicou.

“Hálito Azul” foi apresentado pela primeira vez no 71.º Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, em julho do ano passado. Depois disso “sofreu alterações”, e a versão final foi estreada há um ano no festival Porto/Post/Doc. A partir de quinta-feira pode ser visto no Nimas, em Lisboa, no Cinema Trindade, no Porto, e no Alma Shopping, em Coimbra. No sábado é exibido no Fórum Madeira, no Funchal.

A banda sonora do filme, da autoria de The Legendary Tigerman, "um belíssimo disco", será editada em breve em vinil.

 

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