Operadores marítimo-turísticos de São Miguel juntaram-se à greve estudantil pelo clima para lutar contra a sobre-exploração dos recursos marinhos e pediram a proteção das zonas costeiras e uma melhor fiscalização do mar dos Açores.

A ideia era formar um cordão humano no passeio marítimo ao longo das Portas do Mar, em Ponta Delgada, mas acabou por ser um pequeno ajuntamento, que, no final de tarde desta sexta-feira, reuniu cerca de duas dezenas de pessoas para alertar para a sobre-exploração dos recursos marinhos.

A organização partiu do núcleo da greve estudantil pelo clima de São Miguel, liderado por Ada Pousa, de 17 anos, e contou com a adesão de operadores marítimo-turísticos.

À Lusa, a líder do movimento explicou que o núcleo que lidera se preocupa “muito com a poluição, mas nem sempre o problema é o que se põe no mar, como os plásticos, às vezes o problema é o que se retira do mar, com a sobre-exploração de recursos marinhos”.

Como medidas concretas, a jovem apontou a recuperação das 200 milhas de reserva, ressalvando que é “complicado, com a Comissão Europeia”, mas pede, “pelo menos, um santuário de tubarões”, que sejam criadas reservas em 30% da costa de cada ilha e o aumento da vigilância no mar dos Açores.

Não pretendem “antagonizar”, uma palavra que foi utilizada tanto por Ada Pousa como por Bruno Sérgio, instrutor do centro de mergulho Best Spot, que garante que a criação de reservas marinhas na zona costeira das ilhas açorianas beneficiaria também os pescadores da região.

“O que temos visto, ao longo destes anos, é que cada vez há menos peixes debaixo de água, não só em termos de quantidade, mas também em termos de tamanho”, afirmou o mergulhador, acrescentando que o problema começou por se notar mais em São Miguel, mas “tem-se vindo a alastrar para as outras ilhas”.

A proteção de 30% da zona costeira das ilhas açorianas é uma questão que todos os presentes defendiam, reconhecendo ao governo regional um esforço para proteger os recursos do mar açoriano, mas lamentando que esses esforços sejam aplicados, principalmente, ao mar profundo, protegendo, essencialmente, as espécies pelágicas.

Ainda assim, como já Ada tinha apontado, é preciso fiscalizar melhor as zonas protegidas: “A legislação é suficiente, mas há falta de fiscalização. As leis existem, mas não está lá ninguém para ver se elas estão a ser cumpridas”, afirmou Bruno Sérgio.

O mergulhador apontou o caso dos tubarões, que são apanhados como pesca secundária da pesca de espadarte por frotas estrangeiras, vindas da União Europeia.

“Um tubarão é vendido em lota a 0,30 euros o quilo, que não dá dinheiro nenhum, e esse mesmo tubarão vivo rendia, numa operação de mergulho, 1500 euros numa manhã. E esse mesmo tubarão está lá para a tarde, para a manhã a seguir… Neste momento, há mais benefícios em proteger”, disse.

Esse é um esforço que o executivo açoriano tem levado a cabo, nomeadamente quando, entre as recomendações para as pescas que fez chegar à Comissão Europeia, incluiu a extensão da proibição da utilização de estralhos de aço na arte de palangre de superfície “a todas as embarcações que operam e/ou descarregam na subárea Açores da Zona Económica Exclusiva nacional”.

A medida já é aplicada à frota regional e permite reduzir “as capturas de tubarões pelágicos na pescaria de espadarte e potenciar o desenvolvimento de atividades emergentes, como o mergulho com tubarões”, explicou.

Bruno Sérgio apontou um cenário desolador, em que até mesmo a pesca de pequena dimensão causa grandes impactos, apontando a barracuda e o peixe porco como duas espécies que denotam a presença de pescadores num local, porque os cardumes desaparecem muito rapidamente.

“Houve um ano em que havia uma aglomeração de chicharro junto ao Dóri [um navio naufragado junto à costa de São Roque, em Ponta Delgada], de tal forma que nem conseguíamos ver o naufrágio. Os turistas saíam da água de olhos arregalados – nem queriam acreditar no que tinham visto. Bastou uma noite, com três barcos, e no dia seguinte não tinha lá um peixe para ver”, contou.

O mergulhador apontou a história como um exemplo de como, mesmo quando “a escala é pequena, o impacto é enorme, porque basta que a pesca seja feita sempre no mesmo sítio e da mesma forma para ter impacto”.

(C/ ÁUDIO)

*** Serviço áudio disponível em www.lusa.pt ***

Ponta Delgada, Açores, 31 ago 2019 (Lusa) – Operadores marítimo-turísticos de São Miguel juntaram-se à greve estudantil pelo clima para lutar contra a sobre-exploração dos recursos marinhos e pediram a proteção das zonas costeiras e uma melhor fiscalização do mar dos Açores.

A ideia era formar um cordão humano no passeio marítimo ao longo das Portas do Mar, em Ponta Delgada, mas acabou por ser um pequeno ajuntamento, que, no final de tarde desta sexta-feira, reuniu cerca de duas dezenas de pessoas para alertar para a sobre-exploração dos recursos marinhos.

A organização partiu do núcleo da greve estudantil pelo clima de São Miguel, liderado por Ada Pousa, de 17 anos, e contou com a adesão de operadores marítimo-turísticos.

À Lusa, a líder do movimento explicou que o núcleo que lidera se preocupa “muito com a poluição, mas nem sempre o problema é o que se põe no mar, como os plásticos, às vezes o problema é o que se retira do mar, com a sobre-exploração de recursos marinhos”.

Como medidas concretas, a jovem apontou a recuperação das 200 milhas de reserva, ressalvando que é “complicado, com a Comissão Europeia”, mas pede, “pelo menos, um santuário de tubarões”, que sejam criadas reservas em 30% da costa de cada ilha e o aumento da vigilância no mar dos Açores.

Não pretendem “antagonizar”, uma palavra que foi utilizada tanto por Ada Pousa como por Bruno Sérgio, instrutor do centro de mergulho Best Spot, que garante que a criação de reservas marinhas na zona costeira das ilhas açorianas beneficiaria também os pescadores da região.

“O que temos visto, ao longo destes anos, é que cada vez há menos peixes debaixo de água, não só em termos de quantidade, mas também em termos de tamanho”, afirmou o mergulhador, acrescentando que o problema começou por se notar mais em São Miguel, mas “tem-se vindo a alastrar para as outras ilhas”.

A proteção de 30% da zona costeira das ilhas açorianas é uma questão que todos os presentes defendiam, reconhecendo ao governo regional um esforço para proteger os recursos do mar açoriano, mas lamentando que esses esforços sejam aplicados, principalmente, ao mar profundo, protegendo, essencialmente, as espécies pelágicas.

Ainda assim, como já Ada tinha apontado, é preciso fiscalizar melhor as zonas protegidas: “A legislação é suficiente, mas há falta de fiscalização. As leis existem, mas não está lá ninguém para ver se elas estão a ser cumpridas”, afirmou Bruno Sérgio.

O mergulhador apontou o caso dos tubarões, que são apanhados como pesca secundária da pesca de espadarte por frotas estrangeiras, vindas da União Europeia.

“Um tubarão é vendido em lota a 0,30 euros o quilo, que não dá dinheiro nenhum, e esse mesmo tubarão vivo rendia, numa operação de mergulho, 1500 euros numa manhã. E esse mesmo tubarão está lá para a tarde, para a manhã a seguir… Neste momento, há mais benefícios em proteger”, disse.

Esse é um esforço que o executivo açoriano tem levado a cabo, nomeadamente quando, entre as recomendações para as pescas que fez chegar à Comissão Europeia, incluiu a extensão da proibição da utilização de estralhos de aço na arte de palangre de superfície “a todas as embarcações que operam e/ou descarregam na subárea Açores da Zona Económica Exclusiva nacional”.

A medida já é aplicada à frota regional e permite reduzir “as capturas de tubarões pelágicos na pescaria de espadarte e potenciar o desenvolvimento de atividades emergentes, como o mergulho com tubarões”, explicou.

Bruno Sérgio apontou um cenário desolador, em que até mesmo a pesca de pequena dimensão causa grandes impactos, apontando a barracuda e o peixe porco como duas espécies que denotam a presença de pescadores num local, porque os cardumes desaparecem muito rapidamente.

“Houve um ano em que havia uma aglomeração de chicharro junto ao Dóri [um navio naufragado junto à costa de São Roque, em Ponta Delgada], de tal forma que nem conseguíamos ver o naufrágio. Os turistas saíam da água de olhos arregalados – nem queriam acreditar no que tinham visto. Bastou uma noite, com três barcos, e no dia seguinte não tinha lá um peixe para ver”, contou.

O mergulhador apontou a história como um exemplo de como, mesmo quando “a escala é pequena, o impacto é enorme, porque basta que a pesca seja feita sempre no mesmo sítio e da mesma forma para ter impacto”.

FONTE:LUSA

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