
Governo regional quer ter fazedores para compensar redução do contingente dos EUA nas Lajes.
“Na década de 70 estavam cá cerca de 6.000 norte-americanos, há uns anos eram uns 4.000, agora nem chegam aos 200”, conta Marina Nunes, da startup Azores Touch, enquanto passeia pela zona ocupada pelos Estados Unidos da Base das Lajes. Parece uma cidade fantasma que se distingue das tradicionais vilas terceirenses, com os seus edifícios amarelo claro, em estilo colonial. Há condomínios de vivendas perfeitamente alinhadas, parques infantis, uma escola secundária. Tudo vazio.
“Antigamente nós, os locais, pagávamos 50 euros e tínhamos acesso o ano inteiro à zona norte-americana das Lajes. Vínhamos ao bowling, ao cinema, às compras. Sabíamos as novidades todas aqui antes de chegarem a qualquer lado.
Costumava-se dizer que a Base era a terceira cidade da ilha, a seguir a Angra do Heroísmo e à Praia da Vitória”, continua a guia turística. A redução do contingente americano nas Lajes, uma intenção de Barack Obama tornada pública em janeiro de 2015, não afetou apenas a densidade populacional da Terceira. Teve um impacto considerável na economia da ilha, que se viu obrigada a fazer render outras fontes de receita, enquanto a diplomacia norte-americana e a portuguesa não se acertam quanto ao futuro da Base. “Já devíamos ter pensado que eles não iam ficar cá para sempre.
Mas agora estamos imbuídos no espírito empreendedor e isto acaba por ser uma resposta muito importante, até porque o tecido empresarial local ressentiu-se muito”, confessa Fábio Santos, diretor executivo da Startup Angra, inaugurada na sexta-feira na capital da ilha Terceira.
A incubadora de empresas é a segunda da ilha e a quarta dos Açores. Está a ser projetada há três anos, altura em que uma delegação terceirense foi conhecer o que de melhor se fazia no continente. “Fomos a vários sítios. À Beta-i, à Fábrica de Startups, à Startup Lisboa, que na altura era dirigida pelo João Vasconcelos, atual secretário de Estado da Indústria, que nos disse que, se queríamos marcar a diferença, não podíamos fazer o mesmo que todos estavam a fazer.
Sugeriu-nos que aproveitássemos o elevado número de emigrantes açorianos, em posições de destaque nos Estados Unidos, para fazer parcerias e nos ajudar a levar alguns dos nossos empreendedores para lá. Pensámos que seria uma excelente ideia”, recorda Guido Teles, vereador da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. A relação entre os Açores e os Estados Unidos estende-se além da importância estratégica da Base das Lajes. Estima-se que os emigrantes e descendentes açorianos no país de Donald Trump já tenha ultrapassado um milhão. Mas antes de ir explorar as relações transatlânticas, a Startup Angra quer concentrar-se em potenciar o que há na ilha. “Apesar de esta incubadora ser uma iniciativa aberta a qualquer projeto e empresa que aqui se queira instalar, existem algumas áreas que são a nossa aposta, que gostaríamos de privilegiar e que têm a ver com a nossa visão e que refletem as potencialidades da economia da nossa ilha”, explica o presidente da Câmara, Álamo Meneses.
“Essas áreas são turismo, agroalimentar, indústria criativas, tecnologias verdes e de aproveitamento dos recursos naturais.
” E a primeira empresa incubada na Startup Angra é, exatamente, um projeto turístico. A Azores Touch nasceu no início do ano, pela mão de Sérgio Cota, e não tem parado de crescer. “Eu já geria as empresas da minha família. E detetava que faltava uma grande organização na oferta turística da ilha. Entretanto, reabilitei umas casas que tinha para turismo rural e começou tudo a partir daí.
Depois de gerir essas habitações, passei a ficar responsável por outras. Percebi as necessidades dos turistas e comecei ainda a fornecer outros tipos de produtos, como rent-a-car, passeios, etc,” conta o fazedor.
A Azores Touch trata hoje de toda a experiência turística desde a chegada à saída da Terceira, tem mais de duas mãos-cheias de parceiros e quase uma dezena de trabalhadores. Num futuro não muito distante, pretende alargar o raio de ação às outras ilhas do arquipélago açoriano.
A startup de Sérgio Cota foi a primeira, mas não é a única. A incubadora de Angra do Heroísmo conta com 50 projetos, distribuídos por pré-incubação, incubação virtual e incubação física.
Na sexta-feira, foi a inauguração oficial das suas instalações, no histórico edifício da antiga Casa do Capitão do Donatário, mas a Startup Angra tem estado já em funcionamento há alguns meses, em locais provisórios.
Resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal e a Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo e faz parte de um projeto maior, apoiado pela Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores, para o desenvolvimento tecnológico da ilha, que inclui também a Praia Links, incubadora da Praia da Vitória, e o TERINOV, o Parque Tecnológico da Terceira, que se estima que fique pronto em 2018 e representa um investimento superior a 8,2 milhões de euros. “Ou seja, com isto tudo já não há nenhuma razão para não se trabalhar aqui na nossa ilha como se trabalha noutro lado qualquer,” indica Fábio Santos. Com este boom de tecnologia e inovação, prevê-se que os terceirenses quase deixem de notar a falta dos militares norte-americanos.
Marta Velho



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