A directora de sustentabilidade do Google veio à Web Summit para mostrar que a empresa considera o futuro do planeta uma prioridade. Mesmo que apoie financeiramente algumas organizações que contestam a gravidade das mudanças climáticas.

O Google está a trabalhar num programa de aceleração para startups focadas na área da sustentabilidade na região da Europa, África e Médio Oriente. A novidade foi apresentada esta terça-feira por Kate Brandt, directora de sustentabilidade do Google, que veio à Web Summit para partilhar os projectos da empresa na área. O objectivo do novo programa é disponibilizar acesso a formação, financiamento e apoio técnico a empresas a desenvolver estratégias para combater o desperdício alimentar, o aquecimento global e a pobreza na região – deve arrancar em 2020 com um grupo de oito a dez startups.

“Um dos primeiros focos é ajudar na área da monetização que costuma ser a grande barreira”, disse a directora no planet:tech, um palco da Web Summit dedicado a soluções para “salvar” o planeta. Questionada pelo PÚBLICO, mais tarde, sobre estratégias específicas durante uma conferência de imprensa, Brandt disse que "ainda é cedo” para explicar como o Google pode pôr estas empresas a ganhar mais dinheiro, mas que o processo começa por pôr as startups a “usar mais tecnologia” como inteligência artificial para diminuir o desperdício, as emissões de carbono e o gasto energético.

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A sustentabilidade é uma área que a directora do Google conhece bem. Antes de chegar à gigante tecnológica, Brandt dirigiu a secção de sustentabilidade da Casa Branca (que foi criada durante a administração de Barack Obama), nos EUA, e projectos na universidade de Stanford. Ao mudar-se para o Google, queria resolver o problema de dentro de um dos grandes responsáveis.

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Para Kate Brandt, um dos grandes problemas das grandes empresas de tecnologia são os centros de bases de dados. “No Google, como muitos sabem, depende-se destas bases de dados para todos os serviços, desde o nosso motor de busca ao serviço de email e aos mapas”, admitiu em palco.

Embora usar sacos reutilizáveis na hora de ir ao supermercado e evitar palhinhas (ou optar por versões de inox, bambu ou vidro) ajude a diminuir a pegada ecológica, usar a Internet – por exemplo para ver um vídeo no YouTube ou enviar uma mensagem – também tem impacto ambiental. O motivo é que o mundo virtual depende de servidores de computadores que guardam a informação disponível em sites online e partilham-na com outros computadores ou aparelhos móveis. E estes servidores, que ficam armazenados em enormes centros de base de dados (os chamados “data centers"), dependem de electricidade para funcionar. Para funcionar bem, os servidores devem ser armazenados a temperaturas muito baixas (o que implica um gasto energético maior).


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“É um grande desafio”, notou Brandt, que aproveitou a Web Summit para falar dos projectos do Google para ser mais amigo do ambiente. Um exemplo é o Environmental Insights Explorer, uma plataforma que ajuda várias cidades a medir e a gerir a sua pegada de carbono. Em palco, Kate Brandt também destacou o facto de a Google ter adicionado 20 cidades à sua plataforma esta semana. “E em breve iremos juntar cidades portuguesas”, destacou a directora, embora não tenha dado detalhes sobre datas.

Além disso, até 2020 a gigante tecnológica pretende que todos os aparelhos com assinatura Google ("Made by Google") – telemóveis, colunas inteligentes e acessórios – incluam materiais recicláveis. A empresa mantém ainda os esforços para ser “neutra em emissões de carbono": ou seja, as toneladas de carbono emitidas devem ser todas compensadas, por exemplo, através da plantação de árvores ou da geração de energia a partir do reaproveitamento de resíduos em aterros.

Críticas à estratégia do Google
Mesmo com o Google a tentar mostrar que é amigo do ambiente, vários jornalistas aproveitaram a conferência de imprensa para relembrar alguns dos desafios da tecnológica na área. Só o mês passado a empresa foi alvo de críticas por apoiar financeiramente algumas organizações que contestam a gravidade das mudanças climáticas. Várias empresas e institutos norte-americanos que negam a interferência das actividades do homem nas alterações climáticas – ou rejeitam alarmismos sobre o aquecimento global – estão entre a lista de empresas que recebem mais donativos da gigante tecnológica. A lista inclui nomes como a União Conservadora Americana, que defende que o tempo de escola deve ser dedicado a matérias como matemática e literatura e não ao activismo climatérico.

Na altura, o Google frisou que nem sempre concorda com todas as ideias e projectos das empresas com quem trabalha ou a quem faz doações financeiras. “Nós patrocinamos organizações com várias posições e ideais no espectro político”, disse fonte oficial do Google.


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Questionado sobre o PÚBLICO sobre a importância de não alienar empresas com quem colabora (que podem ter diferentes ideias de sustentabilidade), Brandt não respondeu directamente. “Queremos inspirar outras empresas”, preferiu dizer. “E é por isso que partilhamos todos os nossos projectos e todos os resultados das nossas investigações.”

Ainda assim, alguns trabalhadores da empresa acham que poderia ser feito mais. Esta semana, mais de mil trabalhadores do Google assinaram uma carta aberta a pedir à empresa para ser mais agressiva na estratégia de combate às mudanças climáticas, incluindo deixar de apoiar empresas na indústria dos combustíveis fósseis. Em Setembro, centenas de membros do Google também fizeram greve em protesto às alterações climáticas e à política da empresa continuar a apoiar financeiramente membros do congresso norte-americano que votam contra legislação para travar o aceleramento do aquecimento global.Google lança programa de aceleração para startups que querem “salvar o planeta”
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FONTE: PÚBLICO

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